sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Rochas Magmaticas

Eu andei em Pedras.
Primeiro era areia, dessas que o mar retira por debaixo dos pés, e insistimos em nos equilibrar sobre elas, não caí. Relaxei.
Segundo ano era rocha, mais segura, mas no sol se esquentava e no frio se esfriava. Endureci.
Depois era mármore, plano, belo, atraente. Mas escorreguei.
Por fim, vieram os diamantes, lindos, perpétuos, reluzentes. Mas extremamente dolorosos, não aquentei. Calejei.
Eu sou pedra, furtacor, esfarelando, pronto a se quebrar.









quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Faltou ar





Nós nuca tivemos nossa música, mas nunca senti algo tocar tão alto em meu coração. Amar não dói, mas o processo de desamar é torturante. Lembro da gente na cama de solteiro, não fazíamos planos, a gente se amava, a vida foi tão mansa, boa e plena conosco. Gentilmente a gente se amou, se descobriu, aceitamos nossos defeitos, fomos companheiros e cúmplices. Respeitamos entre brigas nossos desejos. Eu tive tanto medo de amar, mas você me demonstrou tanta confiança, de me fazer ter essa sensação estúpida, de amar, - que pra você é estar perto, e pra mim é estar dentro -. Suportamos como pudemos nossas diferenças, e te vi aos poucos mudando. Não me conformo o fato de ter lhe transformado tanto, de ter feito chorar tantas vezes, parece que eu te destruí aos poucos, eu te tornei uma pessoa pesada. Eu fui terrível, sou, com minha boca que não aquenta as palavras, mas porque você foi sempre tão sensível? Eu te magoei, me perdoe, não sei fazer curvas. Eu queria tanto você acordado comigo, queria tanto você dançando, rindo comigo. Você dia, eu, noite. Eu não faço você ter insônia e tesão mais, você se acomodou. Mas eu lembro do seu sorriso. Como é bom voar. Então deixo você ir, e quem sabe se no futuro a gente se alinha, e volta a sentir. Parece inaceitável a minha decisão. Eu sei. Mas é nossa obrigação seguir. Faltou ar. Te amo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Crisálida

Em 2014 eu tive um sobressalto. Do nada eu era apenas eu mesmo. Tudo o que me restara a minha vida toda, vinha a tona, o casulo estava amassado no chão, junto com a velha máscara de seda. Do nada eu havia percebido os meus desejos, sentia meu corpo, o chão e o céu. Reconheci a minha distância, e me vi perguntando a mim mesmo aonde eu estava. Não me lembro. Eu senti meu cheiro de infância, com uma mistura de marfim, barro e bellis e me contemplei com as lembranças. Eu pude ver a louça chinesa e a cor dos olhos da minha avó. Vi ele na biblioteca, sorri, e no final do corredor à direita de todos os meu defeitos, vi vida nova. Percebi que janeiro, havia em mim, finalmente chegado.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Amor Primitivo



Eu nasci para amar, não para ser refém do amor alheio. Eu nunca dependi deste tipo de aprovação. Sempre sonhei com o amor verdadeiro, traçar sonhos juntos - a casa imensa de piso de mármore com crianças e meu amor na mesa de café. Em minha casa não há grades nas janelas, as chaves estão sempre nas fechaduras, todo mundo é livre pra entrar e sair, quando quiser. E assim como na minha casa, meu coração também é livre, amar não significar parar de ser você, há sim de renegar a certas coisas, mas tentar prender a quem se ama não é só cruel, é a maior violência à liberdade. Assassinar a auto-estima é um crime de pudor à vida, é cegar uma criança órfã. 
Talvez eu prefira a casa de chão de mármore vazia e eu ainda não tenha percebido isso; com as janelas bem abertas, de onde eu possa observar em segurança as pessoas lá fora. Talvez amar o outro seja difícil demais pra mim e eu não consiga compreender ainda. Abnegar é árduo. Amar é ser o outro, sem deixar de ser você. Você deve ser completo para você, é uma ousadia muito grande tentar ser cara-metade, um complemento. Amar é estar ao lado, e dentro ao mesmo tempo, sem cobranças, ou obstante a isso, da forma mais primitiva possível, nascerá grades de sombras na janela de suas casas. Não torne seu coração um cativeiro, torne-o um lar.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Janeiro


Eu sempre achei que se eu fingisse me importar com as pessoas, um dia eu realmente me importaria. Eu preciso desabafar isso hoje, pois até ontem eu pensava que não sentia. Não sentia a dor do outro, a perda do outro, eu fingia que sentia, pra ver se sentia, estava seguro no meu egoísmo. Mas ontem eu senti, me tornei vulnerável no momento em que me preocupei com o outro, só o amor nos faz desligar do que somos, do que queremos, para olhar para o outro com mais cuidado, mais atenção. Pensar no que falar para não magoar alguém, antes pra mim era um abuso, hoje se torna algo do meu cotidiano. Então ser humano deve ser isso, uma necessidade de amar para sentir, não por você, pelo outro. E sentir pelo outro dói, muito mais que sentir por si só, é um tumor no meio de um coração, que bate. Uma dor que todos devemos ter.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Delirium

Delirium que me foi narrado por uma paciente:

"Eu estava em um ovo, e  estava aberto ovo, aberto por mãos de uma pessoa só, não houve instrumento, laser, não houve nada, só mãos, e de uma pessoa só, só eu sabia. E havia no ovo detalhes em furta-cor, era muito pouco, era discretíssimo ali dentro, porque o ovo era todo branco, muito branco por dentro, e os nacarados dele, eram assim, estratégicos, como se fossem colocados com uma composição bonita, eram pouquíssimos nacarados, com uma simplicidade, um MEDO do exagero. Quando eu olho e vejo o nacarado, eu começo a ouvir alguém me chamar - daqui a pouco -, só que pouco antes de alguém me chamar eu me enrosquei completamente, como se eu enroscasse e ninguém me visse, mas no final eu sou obrigada a acordar com alguém me chamando pra tomar banho, e aí Doutor eu saio facilmente do ovo, verificando que havia uma pilha imensa destes ovos, e meu ovo estava em uma parte intermediária para baixo. Como eu saí? Eu não sei, e não posso reclamar disso. Então desde aí não posso reclamar de meus deliriuns." (J.F)

Retroceder v.i.

Retroceder. Hoje percebi o quanto já cedi a este verbo, quantas vezes voltei atrás em minhas opiniões, não estou dizendo que não tenho personalidade o suficiente pra arcar com minhas ideias, mas, quantas vezes já regredi, teorizei, mesmo quando o certo era inevitavelmente - O CERTO -. Eu tentei de tantas vezes entender o errado, coloquei meu caráter em prova, desenvolvi tantas discussões que não condiziam ao som de quem eu sou, tantas vezes eu virei uma terceira pessoa apenas para agradar outras terceiras pessoas, tantas vezes eu tentei ver no errado algo de bom e o protegi, fui seu amigo mais fiel. Pois bem, o errado sempre será o errado, não existe meio caminho, nenhum crime é justificável, por mais que falhas e erros sejam consequências, acontecem! – pois quem nunca errou - Assumo que a arte de tentar não falhar, tentar não errar possui um valor maior. Precisei me dissolver à superficialidade de tentar entender o errado, andar lado a lado com ele, para enfim sentir. E como qualquer experiência existe o seu lado bom, não vou mentir, eu aprendi muito, me diverti, mas em massa eu acabei por ser consumido, nasceu em mim sentimentos que eu não conhecia, eu me tornei de certa forma hostil, me tornei a terceira pessoa que já lhes disse, me reduzi, cometi contra eu mesmo o maior crime que se pode cometer a qualquer pessoa, eu não me permiti ser eu mesmo. Foi-me necessário se perder tanto, pra reconhecer que eu não estava sendo feliz, que a convivência com o errado, estava sendo desagradável, e foi assim que no meio do caos eu senti saudades de quem eu havia sido outrora, então eu me desliguei. Mesmo havendo uma afinidade espiritual qualquer, eu destruí dentro de mim o reflexo do errado, o terceiro eu, e mesmo sobrando qualquer estilhaço, qualquer resquício de amizade, que por receio, eu evito. Enfim, aprendi que vida é um todo indivisível, e que mesmo existindo o certo, o errado, ainda haverá o todo o resto, e temo ainda que tentar provar que tenho razão significaria reconhecer o meu medo de que posso ainda estar bastante errado.