terça-feira, 23 de outubro de 2012

Delirium

Delirium que me foi narrado por uma paciente:

"Eu estava em um ovo, e  estava aberto ovo, aberto por mãos de uma pessoa só, não houve instrumento, laser, não houve nada, só mãos, e de uma pessoa só, só eu sabia. E havia no ovo detalhes em furta-cor, era muito pouco, era discretíssimo ali dentro, porque o ovo era todo branco, muito branco por dentro, e os nacarados dele, eram assim, estratégicos, como se fossem colocados com uma composição bonita, eram pouquíssimos nacarados, com uma simplicidade, um MEDO do exagero. Quando eu olho e vejo o nacarado, eu começo a ouvir alguém me chamar - daqui a pouco -, só que pouco antes de alguém me chamar eu me enrosquei completamente, como se eu enroscasse e ninguém me visse, mas no final eu sou obrigada a acordar com alguém me chamando pra tomar banho, e aí Doutor eu saio facilmente do ovo, verificando que havia uma pilha imensa destes ovos, e meu ovo estava em uma parte intermediária para baixo. Como eu saí? Eu não sei, e não posso reclamar disso. Então desde aí não posso reclamar de meus deliriuns." (J.F)

Retroceder v.i.

Retroceder. Hoje percebi o quanto já cedi a este verbo, quantas vezes voltei atrás em minhas opiniões, não estou dizendo que não tenho personalidade o suficiente pra arcar com minhas ideias, mas, quantas vezes já regredi, teorizei, mesmo quando o certo era inevitavelmente - O CERTO -. Eu tentei de tantas vezes entender o errado, coloquei meu caráter em prova, desenvolvi tantas discussões que não condiziam ao som de quem eu sou, tantas vezes eu virei uma terceira pessoa apenas para agradar outras terceiras pessoas, tantas vezes eu tentei ver no errado algo de bom e o protegi, fui seu amigo mais fiel. Pois bem, o errado sempre será o errado, não existe meio caminho, nenhum crime é justificável, por mais que falhas e erros sejam consequências, acontecem! – pois quem nunca errou - Assumo que a arte de tentar não falhar, tentar não errar possui um valor maior. Precisei me dissolver à superficialidade de tentar entender o errado, andar lado a lado com ele, para enfim sentir. E como qualquer experiência existe o seu lado bom, não vou mentir, eu aprendi muito, me diverti, mas em massa eu acabei por ser consumido, nasceu em mim sentimentos que eu não conhecia, eu me tornei de certa forma hostil, me tornei a terceira pessoa que já lhes disse, me reduzi, cometi contra eu mesmo o maior crime que se pode cometer a qualquer pessoa, eu não me permiti ser eu mesmo. Foi-me necessário se perder tanto, pra reconhecer que eu não estava sendo feliz, que a convivência com o errado, estava sendo desagradável, e foi assim que no meio do caos eu senti saudades de quem eu havia sido outrora, então eu me desliguei. Mesmo havendo uma afinidade espiritual qualquer, eu destruí dentro de mim o reflexo do errado, o terceiro eu, e mesmo sobrando qualquer estilhaço, qualquer resquício de amizade, que por receio, eu evito. Enfim, aprendi que vida é um todo indivisível, e que mesmo existindo o certo, o errado, ainda haverá o todo o resto, e temo ainda que tentar provar que tenho razão significaria reconhecer o meu medo de que posso ainda estar bastante errado.